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Entrevista completa do Prof. Glaucius Oliva no "Estadão" - 26/7/2009

 

(Entrevista conduzida por Renata Cafardo)

Diretor do Instituto de Física de São Carlos, o cientista Glaucius Oliva defende grandes mudanças no tradicional vestibular da Fuvest. Candidato à reitoria da USP, ele diz que a prova poderia ser substituída pelo Enem em alguns cursos. Em outros, haveria apenas uma segunda fase. São Paulo foi um dos únicos Estados em que o número de inscritos no Enem caiu, porque as universidades públicas paulistas não aderiram ao novo Enem, criado para funcionar como um vestibular.
 
Oliva argumenta que é preciso acabar com o que considera um "crime" cometido contra jovens brasileiros, submetidos a dezenas de provas para entrar na faculdade.

"Você tem que convencer um aluno de 1.º ano de Física de que ele não tem que decorar fórmula. Isso é uma deformação do vestibular. Ele tem que ter tanta informação que não consegue obter isso raciocinando, então faz uma musiquinha sobre a Lei de Newton", diz Oliva, de 49 anos.
 
O candidato a reitor foi um dos responsáveis pelo Inclusp, programa de inclusão da USP, que garante pontos a mais na Fuvest para alunos de escolas públicas. Comenta-se na universidade que sua participação na elaboração do projeto - um dos marcos da gestão Suely Vilela - fez com que se tornasse o preferido da reitora para a sucessão. As eleições serão em outubro.
 
Em entrevista ao Estado, Oliva - cientista referência na pesquisa de proteínas para desenvolvimento de fármacos - diz que todos os programas de cursos da USP devem estar disponíveis na internet.

"Tem muito professor que fala que não quer colocar o programa na internet porque o professor da Unip vai copiá-lo e vai dar o mesmo curso lá. Mas isso é melhor coisa que pode acontecer."
 
O senhor tem o apoio da reitora na eleição?

"Como há vários membros que contribuíram para a gestão (como candidatos), ela deve ter uma certa isenção nesse processo. Mas acho que ela tem uma certa simpatia pelo que fiz. Eu estava na comissão no Inclusp. Meu raciocínio é assim: o que vamos entregar como produto, se pensarmos como uma empresa? O produto é o aluno formado. Quem é melhor preparado para aproveitar o ensino de qualidade? É o camarada que veio de grande oferta numa escola privada e ficou em último ou aquele que veio de escola pública e ficou no topo da lista, mas não conseguiu entrar? A ideia do bônus nasceu disso. Na prática, você está trocando na lista esses indivíduos. É como na agricultura, não precisa da melhor semente, e sim da melhor fruta".
 
Mas o Inclusp demorou a dar resultados.

Demorou, agora está aumentando. Tínhamos receio de ter uma pontuação excessiva, que fizesse com que o restante dos candidatos se sentisse desestimulado. Agora, precisa fazer uma avaliação disso tudo, da avaliação seriada, que não pegou e a Secretaria do Estado não gostou. Outra coisa que teremos que enfrentar são os exames unificados nacionais".
 
O senhor é a favor de que USP participe do Enade (avaliação do MEC para cursos de ensino superior)?

"O papel de uma universidade de excelência como a USP tem de ser de melhorar o sistema de educação superior como um todo. E uma das maneiras de fazer isso é participar de exames nacionais. Participar de um exame e ter níveis altos é mostrar que o restante pode melhorar".
 
E a participação no novo Enem?

"Acho que o Enem pode ser aproveitado, em alguns casos, como primeira fase. É uma oportunidade que nós perdemos no Estado como três universidades públicas. Não dá para querermos agora fazer um único vestibular unificado paulista, quando o MEC já fez. Devíamos ter feito para dar o exemplo. A USP tem que liderar, não podemos ser conservadores e retrógrados. Em cursos de menor procura talvez o Enem já seja suficiente para fazer a seleção. Para cursos mais competitivos, precisa de uma segunda etapa, que a USP faria. A multiplicação dos vestibulares é um crime que a gente faz com o jovem. Você tem de convencer um aluno de 1º ano de Física de que ele não tem que decorar fórmula.
E isso é uma deformação do vestibular. Ele tem que ter tanta informação que não consegue obter isso raciocinando, então faz uma musiquinha sobre a Lei de Newton. E pensa que conhecer é isso".
 
O senhor é favor da educação a distância? O curso da Univesp foi adiado porque a USP não queria interferência do governo.

"Defendi a criação de um curso de educação a distância porque a USP não pode enfiar a cabeça na terra como um avestruz sobre um tema que é importantíssimo no mundo. A gente não sabe onde vai estar o ensino superior daqui a 15 anos. Não podemos deixar de experimentar, aprender a fazer, ver qual o impacto sobre os alunos. Quando tivermos mais experiência, sou favorável a botar na internet, quem quiser pega. Sou, inclusive, favorável a fazer isso com cursos presenciais. Tem muito professor que fala que não quer colocar o programa na internet porque o professor da Unip vai copiá-lo e vai dar o curso lá. Mas isso é melhor coisa que pode acontecer. Isso é o papel de uma universidade de excelência, fazer coisas boas e divulgar. Mas nesse momento a USP está certíssima, a gente só assina o convênio (do curso a distância) se tiver condição de controlar a qualidade".
 
O que acha do processo eleitoral na USP, defende eleição paritária?

"O processo precisa ser ampliado. Certamente, isso está na origem da crise da universidade desse momento. Nossos melhores professores, técnicos administrativos, cientistas, alunos acabam se recolhendo à sua atividade cotidiana. Essas pessoas estão longe da instituição, não participam, não contribuem com sua opinião. Mas a eleição universal é feita normalmente sob parâmetros que não são necessariamente os acadêmicos. Autoridade na universidade tem um componente diferente de popularidade. Já vi eleições paritárias na qual a plataforma vencedora propunha a redução da nota mínima de aprovação ou da jornada. Isso dá muita popularidade, mas é o melhor para a universidade"?
 
O seu programa fala em ampliar a área de comunicação.

"É um dos nossos grandes desafios, a universidade faz um monte de coisas e a gente comunica muito pouco. A USP tinha que estar presente na mídia todos os dias. Isso não apenas para prestar contas daquilo que a gente faz, mas para despertar nos jovens o interesse de seguir carreira acadêmica. Precisamos convencer nossos professores de que comunicar-se com a sociedade faz parte da missão acadêmica deles".
 
E a relação com o governo do Estado, desgastada durante a gestão Suely?
 
"O governo do Estado é o principal instrumento de expressão da sociedade, que é nossa razão de ser. Nossa relação precisa ser boa. Quero a criação de um centro multidisciplinar de apoio a políticas de Estado, que seja o interlocutor principal para qualquer problema que o governo tenha. Incorporar conhecimento em políticas públicas é uma das melhores formas de atuação da universidade na sociedade".
 
O seu programa fala em aumentar o orçamento da USP também.
 
"A Fapesp tem 1% da arrecadação tributária do Estado, escrito na Constituição. Seria interessante que o valor que vai para as universidades viesse da arrecadação tributária do Estado, e não só do ICMS, como é hoje.Se a forma de arrecadação de imposto mudar, não tem problema, se entrar dinheiro no caixa do governo, temos uma fração disso. Devemos procurar outras fontes para apoio à pesquisa, bolsas, doação de egresso. A USP hoje tem pouco mais de 200 mil egressos, profissionais de excelente qualidade com que temos relacionamento zero.Pessoas que certamente se sentiriam agradecidas de contribuir para o povo paulista".
 
Todo novo reitor fala em conseguir doações de ex-alunos, mas isso nunca acontece. O que fazer?

"É uma questão de determinação. Sabe o que a USP faz hoje quando o aluno recebe o seu diploma? No dia seguinte, ela cancela o e-mail dele. E nunca mais encontro esse aluno. É uma coisa barata manter o e-mail e, para sempre, mandar mensagens. O cara se sente orgulhoso. Podemos mandar divulgações a cada três meses, contar dos programas. Depois de feito tudo isso, posso pedir algum recurso. O ruim é na hora de necessidade querer mandar uma cartinha para o indivíduo que, há 30 anos, não escuta nada da universidade e dizer: pode me dar R$ 1 milhão"?
 
Como o senhor avaliou a ação da polícia no campus na última greve?

"Não ter a polícia do campus da USP é uma responsabilidade de todos nós. Não pode dizer que a reitora não pode chamar a polícia. É a USP que não deve precisar chamar a polícia. Tenho certeza de que podemos, através do diálogo antecipado, permanente, conseguir um acordo de respeito mútuo a direitos fundamentais".
 
Dizem que o candidato a reitor João Grandino Rodas (diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco) teria o apoio do governador José Serra. O senhor acredita que o governador tenha muita influência na escolha do reitor?

"O governador vai escolher o que é melhor para a USP e tenho convicção de que vou mostrar isso".
 
O senhor acha que ele deveria escolher o primeiro da lista?

"O governador tem total liberdade. Se o primeiro for considerado inato para ser o melhor, ele está no total direito de escolher outro. Esse é o mecanismo para preservar a qualidade em um sistema, se cria várias instâncias decisórias. Porque, quando você não tem certeza de que sua instância vai produzir o melhor resultado, cria mais instâncias para refinar o processo de escolha".
 
O senhor é ligado a algum partido?

"Não tenho qualquer filiação partidária".
 
Como está fazendo sua campanha?

"Em abril e maio visitei todas as unidades de ensino e pesquisa, conversando com diretores. A ideia era apresentar a nossa visão de futuro para a USP e colher as ideias e expectativas para que o projeto não fosse de gabinete. Para um planejamento dar errado, é só fazê-lo de gabinete e depois levar a fórmula pronta para as pessoas que vão fazer aquilo. Precisa antes perguntar".
 
Seu programa fala em reorganização curricular.

"Hoje há demandas de formação acadêmica diferentes da clássica, informativa e científica. Há dez anos um aluno que cursava Física só pensava em fazer mestrado, doutorado, carreira acadêmica. Hoje os alunos querem ir para o mercado de trabalho e é disso que o País precisa.Precisamos ter cursos de graduação que ofereçam alternativas. Podem fazer seu currículo escolhendo disciplinas de outras unidades. Hoje a gente tem apostado que a melhor formação é aquela em que damos o máximo de informações ao indivíduo, quando o mundo já pensa diferente. Informação você acessa facilmente hoje pela internet, com as pessoas que você pode contatar e são especialistas. O que hoje precisa é gente habilitada a navegar no mar da informação para construir conhecimento criticamente. Depois ele pode sempre aprender os detalhes, mas precisa aprender como juntar informações e construir ideias, resolverproblemas, onde procurar informação. Aí sim ele escolhe o específico. Tem que dar essa liberdade de informação ao aluno".
 
Muda algo na USP se um cientista se tornar reitor?

"Esse é um paradigma que precisa ser rompido na universidade. Historicamente, se tinha a ideia de que o grande cientista estava muito ocupado com a pesquisa dele para se ocupar da universidade. E isso é uma falácia. Mas na verdade a gente tem que encarar a atividade acadêmica na universidade com vários componentes, a pesquisa é uma delas, mas a universidade precisa de liderança. E é muito melhor que essa liderança seja quem está lá no fim da linha fazendo o que é a verdadeira razão de ser da universidade. Grandes cientistas, grandes professores são também as melhores pessoas para tomar as decisões na universidade. Eu não sou candidato pessoa física, mas eu sou USP, visto a camisa da USP, estou aqui porque muitos colegas acharam que era uma oportunidade".
 
O senhor seria também o reitor mais jovem.

"Acho que isso é uma qualidade, por ter uma proximidade maior com a contemporaneidade talvez possa trazer a USP para esse desafio que é o de enfrentar o século 21. Somos uma grande universidade do século passado, exercemos com sucesso nosso mandato, formamos gente com qualidade. Se for olhar em todas as posições do governo, em grandes universidades do País, nas empresas, médicos, engenheiros, vai ver o DNA da USP. Mas precisa continuar tendo esse papel importante. A gente precisa estar atento, alerta, tomar atitudes de liderança em várias áreas, como a sustentabilidade. Hoje isso ainda é delimitado a algumas escolas, mas tinha que ser transversal. Todo curso de graduação tinha que ter uma disciplina de sustentabilidade".


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